O laminado é a chapa sobre a qual o circuito é construído, e a escolha dele fixa o teto de tudo o que vem depois: quanto calor a placa aguenta, como se comporta em alta frequência, quão confiável é a metalização dos furos ao longo da vida do produto e quanto custa fabricá-la. Especificar apenas "FR-4" deixa decisões importantes na mão do fabricante.
O que é, de fato, um laminado
O laminado, ou material base, combina três elementos:
- uma resina, que dá corpo e isola eletricamente — fenólica, epóxi, ou compostos de PTFE, cerâmica e hidrocarboneto nos materiais especiais;
- um reforço, que dá estrutura — papel, tecido de fibra de vidro, fibra de vidro não trançada ou microfibra;
- uma folha de cobre aderida a uma ou às duas faces, de onde nasce o circuito.
Quando esse laminado é usado como camada interna de uma placa multicamada, a chapa já curada se chama core. O material que entra ainda não totalmente curado, entre cores, para colá-los na prensagem, é o prepreg. Os dois termos voltam com força quando se fala de multilayer.
As grandezas que você precisa entender para especificar
Especificar "FR-4" e parar por aí é um dos erros mais comuns — e mais caros. O material é caracterizado por um conjunto de propriedades, e são elas que determinam se a placa vai sobreviver à montagem e ao campo.
Tg — temperatura de transição vítrea
A temperatura acima da qual a resina deixa de se comportar como um vidro rígido e amolece. Quanto mais alto o Tg, maior a resistência ao calor — e maior o custo e o desgaste de broca na furação. Com solda lead-free, que exige temperaturas de montagem mais altas, o Tg deixou de ser detalhe e virou requisito.
Td — temperatura de decomposição
A temperatura em que o material começa a se degradar quimicamente. Junto com o Tg, define a janela térmica segura do laminado.
CTE — coeficiente de expansão térmica
O quanto o material dilata com o calor. O eixo crítico é o Z, a espessura: se a placa incha demais na vertical quando aquece, tensiona a metalização dos furos e pode trincá-la. Materiais com baixa expansão no eixo Z são mais confiáveis e mais compatíveis com lead-free.
Dk e Df — constante dielétrica e fator de dissipação
Governam o comportamento do material em alta frequência. Para uma placa digital comum quase não importam; para RF, micro-ondas e controle de impedância, são o critério número um.
Absorção de água e estabilidade dimensional
O quanto o material absorve umidade, degradando propriedades elétricas, e o quanto mantém suas dimensões ao longo do processo. Decisivos em precisão e confiabilidade.
Classe de inflamabilidade (UL 94)
O "FR" de FR-4 vem de flame retardant. A classe V-0 é a mais exigente e a esperada na maioria das aplicações profissionais.
CTI — índice de trilhamento comparativo
Mede a resistência da superfície do laminado à formação de um caminho condutor quando exposta a tensão elétrica combinada com umidade e contaminação. É expresso em volts, conforme a norma IEC 60112, e classificado em grupos de material.
Importa quando há alta tensão ou exigência de distância de escoamento — fontes, drivers, aplicações industriais e automotivas de potência. O FR-4 comum fica na faixa intermediária; para tensões mais altas existem grades de FR-4 de alto CTI. A maioria das aplicações não exige especificá-lo, mas ele não vem implícito no "FR-4": se o projeto exige isolação reforçada, especifique o CTI mínimo.
Espessura do laminado e gramatura do cobre
A espessura final, incluindo o cobre, e a espessura da folha de cobre, medida em oz/ft² ou mícrons — 1 oz equivale a cerca de 35 µm. Ambas entram na especificação e afetam corrente suportada, impedância e custo. Os valores disponíveis estão na Capacidade Técnica.
Atenção do comprador. "FR-4" não é uma especificação completa — é uma família. Sem informar Tg, classe de cobre e espessura, você está deixando decisões importantes na mão do fabricante, ou da sorte. Para montagem lead-free, especifique FR-4 de alto Tg e baixo CTE no eixo Z: é a diferença entre uma placa que sobrevive ao forno de refusão e uma que delamina.
As famílias de materiais

Os laminados se organizam em famílias, da mais simples à mais especializada.
Fenólicos com papel — FR-1 e FR-2
Resina fenólica sobre papel. Estampáveis a frio, de baixo custo, usados em face simples e produtos de uso geral. Em compensação, têm propriedades elétricas pobres sob umidade e baixa estabilidade dimensional. Classe mínima V-1.
Compostos — CEM-1 e CEM-3
O CEM-1 usa fibra de vidro na superfície e papel no interior; o CEM-3, fibra de vidro não trançada. Ambos estampáveis, classe V-0, com desempenho intermediário entre os laminados de papel e o FR-4. O CEM-3 é aplicável a dupla face.
FR-4 — o padrão da indústria
Epóxi com tecido de fibra de vidro. Alta resistência a flexão, calor e umidade, excelente estabilidade dimensional e baixa absorção de água. É o laminado mais utilizado na fabricação de placas com furos metalizados, dupla face e multicamada. Quando alguém diz "placa" sem qualificar, quase sempre está pensando em FR-4.
Materiais de alta frequência
PTFE com cerâmica, vidro com cerâmica e hidrocarboneto, PTFE com microfibra, cerâmica com hidrocarboneto. Existem para domar Dk e Df em RF e micro-ondas, com faixas de aplicação que chegam à ordem de dezenas de GHz. Custam mais e atendem RoHS.
Vários materiais de alta frequência exigem tratamento especial dos furos, por plasma ou processo químico, antes da metalização — porque o PTFE não adere bem ao cobre sem esse passo. É um detalhe de fábrica que o projetista costuma ignorar, e nem todo fabricante oferece esse pré-tratamento. Vale confirmar antes de fechar o material.
Três leituras rápidas
O papel é o porão. FR-1 e FR-2 são baratos e estampáveis, mas frágeis sob umidade e dimensionalmente instáveis. Vivem em produtos de uso geral e face simples, onde custo manda.
O FR-4 é o rei. Por equilibrar desempenho térmico, elétrico, mecânico e custo, é o laminado padrão para placas com furos metalizados, dupla face e multicamada.
A alta frequência é outro mundo. Os materiais de PTFE, cerâmica e hidrocarboneto existem para resolver um problema que o FR-4 não resolve — e trazem exigências de processo próprias.
Atenção do comprador. As observações de fabricação não são enfeite. "Exige tratamento especial dos furos" significa etapa a mais, fornecedor capacitado e prazo diferente. Confirme com o fabricante antes de fechar o material, não depois de fechar o projeto.
O que a Micropress trabalha
Os materiais disponíveis, as espessuras de cobre e os limites associados a cada um estão publicados e são atualizados conforme a revisão vigente do CP.
Consultar a Capacidade Técnica · Comparação de laminados · Estudo de mercado de laminados
Este conteúdo corresponde ao Capítulo 2 — Materiais e laminados: a escolha que define a placa do Guia Profissional — Produção e Especificação de Placas de Circuito Impresso, de Gilmar Aparecido de Souza, 1ª edição, 2026, ISBN 978-65-02-22524-0. Adaptado para leitura na web.