Centro de Conhecimento · História

Dos Fios às Trilhas de Cobre

Como uma ideia transformou a fabricação eletrônica e ajudou a mudar o mundo

Vire um aparelho dos anos 1940 de cabeça para baixo e você verá dezenas de fios soldados um a um. Abra um aparelho de hoje e verá milhares de ligações desenhadas em cobre. Entre essas duas imagens há quase um século de inventores, patentes esquecidas, guerras, fábricas e ideias que chegaram cedo demais.

Começar a viagem
Parte de baixo do chassi de um televisor de 1948, tomada por dezenas de fios, resistores e capacitores soldados um a um1948
Placa de circuito impresso multicamada com máscara verde e acabamento dourado, fabricada pela Micropress, com o logotipo da empresa no cantoHoje

Arraste para comparar. À esquerda, um televisor Motorola de 1948, ligado fio a fio. À direita, uma placa de circuito impresso fabricada pela Micropress. Fotos: Westernelectric555 (domínio público) e Micropress (foto provisória).

Ato I · c. 1900 – anos 1950

O mundo dos fios

Durante meio século, cada ligação elétrica foi um fio, cortado, preso e soldado à mão.

Início do século XX

Um fio para cada ligação

Fonte: Scientific American (1920); fichas de museu do Science Museum Group (1973-433) e do Ingenium (1998.0127.001).

Nos primeiros aparelhos elétricos, cada ligação era um fio cortado, preso e ajustado à mão, com parafusos, bornes e porcas.

Muitos rádios domésticos do início dos anos 1920 eram montados literalmente sobre uma tábua de madeira: componentes por cima, fios por baixo. Funcionava, mas cada aparelho exigia horas de trabalho artesanal, e cada fio era um ponto possível de falha.

Fonte: Scientific American (1920); fichas de museu do Science Museum Group (1973-433) e do Ingenium (1998.0127.001).

Documento histórico
Grupo de homens de terno observa um receptor de rádio montado sobre uma base aberta, com válvulas e bobinas à vista
1923: o receptor neutrodino de Louis Hazeltine apresentado ao Radio Club of America. Tudo à vista, tudo ligado a fio.Popular Science Monthly, 1923. Domínio público. Via Wikimedia Commons.
Documento histórico
Rádio dos anos 1920 montado sobre uma tábua de madeira, com três válvulas e fios aparentes
Rádio dos anos 1920 montado sobre uma tábua: o "breadboard" de verdade.Rádio Signal Electric (EUA). Foto: Armstrong1113149, via Wikimedia Commons. Domínio público.
Documento histórico
Receptor de rádio portátil de 1920 com a caixa aberta, mostrando bobina, válvulas e fios
Receptor "Portaphone", 1920. Fios, bobina e válvulas montados um a um.U.S. Bureau of Standards / Scientific American, 22/05/1920. Domínio público. Via Wikimedia Commons.
Fim dos anos 1920 – anos 1950

O emaranhado debaixo do chassi

Quando os rádios passaram a ser ligados na tomada, ganharam um chassi de chapa metálica: válvulas em cima, uma floresta de fios embaixo.

A fiação ponto a ponto, soldada junta por junta, dominou rádios, televisores e instrumentos por décadas. Era robusta e fácil de consertar, mas lenta de montar, sujeita a erros e impossível de automatizar.

Fonte: Radio Broadcast, outubro de 1928, p. 356.

Documento histórico
Página de revista de 1928 com a foto da parte de baixo de um chassi metálico de rádio, com bobinas e fios
"The under side": a fiação sob o chassi metálico de um receptor (Radio Broadcast, outubro de 1928).Radio Broadcast, out/1928, p. 356, Fig. 3. Domínio público nos EUA. Internet Archive / Media History Digital Library.
Documento histórico
Detalhe do interior de um rádio dos anos 1930 com bobinas, capacitor e fios soldados
Interior de um rádio dos anos 1930: bobinas, capacitores e fios, soldados um a um.Foto: Dave H., via Wikimedia Commons. Domínio público.
Ilustração
Ilustração de régua de terminais: tira fenólica marrom com seis terminais rebitados, fios e um resistor soldados
A régua organiza, mas quem conduz continua sendo o fio.Ilustração didática Micropress.
Documento histórico
Desenho de patente com uma tira isolante e terminais metálicos rebitados, com fios presos em alguns terminais
Patente da Cinch, pedida em 1935: terminais rebitados numa tira isolante, com os fios presos neles.Patente US 2.073.466 (S. M. Del Camp / Cinch Mfg. Corp.). Domínio público.
Documento histórico
Duas réguas de terminais com fios coloridos soldados em seus terminais metálicos
Réguas de terminais em uso: o terminal segura, o fio conduz.Foto: Christian Wolff, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Anos 1920 – 1930

Ilhas de apoio no meio dos fios

Para organizar o emaranhado surgiram as réguas de terminais: tiras de laminado fenólico com terminais metálicos rebitados, onde se soldavam componentes e fios. Na década de 1930 elas já eram objeto de patentes para rádio.

Não eram, porém, um "circuito impresso primitivo": quem conduzia a corrente continuava sendo o fio. Réguas e placas impressas conviveram por décadas, e as réguas são fabricadas até hoje.

Parentesco verdadeiro: o mesmo laminado de papel e resina fenólica das réguas serviu, mais tarde, de base às placas de circuito impresso mais simples.

Fonte: Patente US 2.073.466 (Cinch Mfg. Corp., pedido 1935, concessão 1937).

Ato II · Início do séc. XX – 1948

A ideia de trocar fios por metal plano

A ideia de desenhar ligações com metal surgiu cedo. Faltava transformá-la em indústria.

Início do século XX

Uma ideia meio século adiantada

No início do século XX já havia quem propusesse trocar os fios das centrais telefônicas por tiras planas de metal, recortadas e coladas sobre um isolante, inclusive nas duas faces, ligadas através de furos.

Era recortar e colar, não imprimir. Mas a dupla face e o furo de passagem já estavam no papel, meio século antes de a indústria dominá-los.

Fonte: Proposta atribuída pelos historiadores a Albert Hanson, patente britânica de 1903 (K. Gilleo, "The Circuit Centennial"). A conferência no documento original está pendente; por isso, o texto não traz nome nem data.

Ilustração
Ilustração de tiras metálicas planas nas duas faces de um isolante, ligadas por um furo
A ideia: tiras planas de metal nas duas faces, ligadas por um furo.Ilustração didática Micropress.
1913 – 1940

Muitos caminhos, nenhuma fábrica

Fonte: Patentes US 1.563.731 (Ducas, 1925) e US 1.647.474 (Seymour, pedido 1923, concessão 1927); M. Hummel, Leuze-Verlag.

Nas décadas seguintes, inventores testaram quase tudo: corroer metal protegido por verniz, aspergir metal fundido através de máscaras, depositar cobre por eletrólise sobre desenhos condutores.

Duas patentes americanas dos anos 1920, de Frederick Seymour e Charles Ducas, propunham "desenhar" condutores com metal. Faltavam, porém, um laminado confiável e uma demanda que pagasse a mudança. A fiação manual ainda saía mais barata.

Fonte: Patentes US 1.563.731 (Ducas, 1925) e US 1.647.474 (Seymour, pedido 1923, concessão 1927); M. Hummel, Leuze-Verlag.

Documento histórico
Desenhos da patente de Charles Ducas de 1925, com painel, bobinas espirais e padrões condutores
Patente de Charles Ducas, 1925: condutores e bobinas formados por eletrodeposição.Patente US 1.563.731 (pedido 02/03/1925, concessão 01/12/1925). Domínio público.
Documento histórico
Desenho de patente com duas bobinas espirais planas formadas sobre uma folha isolante dobrável
Patente de Frederick W. Seymour (pedido 1923, concessão 1927): bobinas planas sobre folha flexível.Patente US 1.647.474. Domínio público.
1936 – 1948

O robô que fabricava rádios

Fonte: J. A. Sargrove, Journal of the British IRE, jan–fev/1947; Science Museum Group, objetos 1964-257 e 1967-215.

Na Inglaterra, John Sargrove construiu uma máquina, a ECME, que fabricava rádios quase sozinha. Placas de plástico moldadas recebiam metal aspergido, eram fresadas e saíam com condutores, e até bobinas e capacitores, prontos.

Segundo o Science Museum de Londres, a máquina produzia cerca de três painéis por minuto e foi a primeira abordagem moderna de automação na fabricação eletrônica. Sargrove a apresentou em 1947. A máquina não prosperou, mas apontou o caminho.

Fonte: J. A. Sargrove, Journal of the British IRE, jan–fev/1947; Science Museum Group, objetos 1964-257 e 1967-215.

Ilustração
Ilustração das três etapas da máquina de Sargrove: placa moldada com sulcos, metal aspergido e face fresada
Como a máquina de Sargrove formava os condutores.Ilustração didática Micropress, baseada em J. A. Sargrove, J. Brit. IRE, 1947.
Você sabia?

A máquina que assustava

A máquina de Sargrove produzia painéis de rádio em ritmo de linha de montagem, em plena década de 1940. Segundo o Science Museum, ela não se difundiu em parte porque foi vista como uma ameaça aos empregos. Décadas depois, a automação venceria de qualquer forma.

Fonte: Science Museum Group, objetos 1964-257 e 1967-215.

Ato III · 1942 – 1956

O cobre vence

Um processo se impõe, a guerra cria escala e a solda passa a ser feita de uma só vez.

Documento histórico
Desenho da patente de Paul Eisler mostrando o padrão de um circuito completo em folha metálica
Patente de Paul Eisler nos EUA (prioridade britânica de 1943): o circuito inteiro desenhado em folha metálica.Patente US 2.441.960, folha 2. Domínio público.
Ilustração
Ilustração em quatro etapas: laminado cobreado, tinta resistente impressa, corrosão e trilhas finais
Imprimir, proteger, corroer: o processo subtrativo.Ilustração didática Micropress.
1942 – 1943

Imprimir, proteger, corroer

Em Londres, o engenheiro austríaco Paul Eisler reuniu o que estava disperso: folha de cobre colada ao isolante, desenho impresso com tinta resistente por métodos gráficos e corrosão do cobre desprotegido.

Em 1942 montou um rádio com essas placas, hoje guardado no Science Museum de Londres; em 1943 pediu a patente. O princípio é o mesmo usado até hoje. Eisler não foi o primeiro a corroer metal, mas reuniu as etapas num método completo, pensado para a indústria.

Fonte: Science Museum Group, objeto L2000-4429 (rádio de 1942); patentes GB 639.178 (prioridade 02/02/1943) e US 2.441.960.

Você sabia?

O "pai" que perdeu a patente

Paul Eisler é muitas vezes chamado de "pai do circuito impresso". Mas, em 1963, um tribunal dos Estados Unidos declarou inválidas as patentes americanas dele que estavam em disputa, porque processos semelhantes já haviam sido descritos antes. A placa foi construída por muitas mãos.

Fonte: Technograph v. Bendix, 218 F. Supp. 1 (D. Md. 1963).

1945

Um rádio dentro de um projétil

Fonte: NBS Circular 468, "Printed Circuit Techniques" (15/11/1947); Radio & Television News, dez/1949.

A guerra trouxe um desafio extremo: pôr um pequeno rádio dentro de um projétil, capaz de sobreviver ao disparo e detonar perto do alvo, a espoleta de proximidade.

Nos Estados Unidos, a solução produzida em massa a partir de 1945 foi pintar o circuito com pasta de prata sobre placas de cerâmica. Não era cobre corroído: era outra família de tecnologia, ancestral dos circuitos de filme espesso.

Fonte: NBS Circular 468, "Printed Circuit Techniques" (15/11/1947); Radio & Television News, dez/1949.

Documento histórico
Amplificador de duas válvulas montado do jeito tradicional ao lado do mesmo circuito impresso numa pequena placa de cerâmica segurada por uma mão
1947: o mesmo amplificador montado do jeito tradicional (esquerda) e impresso em cerâmica (direita).National Bureau of Standards, Circular 468, Fig. 2 (1947). Domínio público.
Documento histórico
Modelo em corte de uma espoleta de proximidade de 1947, com o circuito sobre bloco cerâmico indicado pelas letras A e B
Espoleta de proximidade em corte: circuito em bloco de cerâmica (B) e restante pintado em placa cerâmica (A).National Bureau of Standards, Circular 468, Fig. 1 (1947). Domínio público.
Documento histórico
Duas fotos de 1947: mãos retirando uma placa impressa de um suporte de estêncil e passando tinta condutora pela tela
1947: impressão de circuitos por estêncil, à mão, no laboratório do NBS.National Bureau of Standards, Circular 468, Fig. 7 (1947). Domínio público.
Ilustração
Ilustração comparando circuito de prata pintada sobre cerâmica com placa de cobre corroído
Duas famílias diferentes de "circuito impresso".Ilustração didática Micropress.
Você sabia?

O manual que deixou de fora o vencedor

Em 1947, o governo americano publicou um guia sobre como fazer circuitos impressos. Ele descreve seis métodos: pintura, spray, deposição química, vácuo, estampagem e pó. A corrosão de folha de cobre, o processo que acabaria dominando o mundo, não está entre eles.

Fonte: NBS Circular 468, "Printed Circuit Techniques" (15/11/1947).

1949

Soldar tudo de uma vez

Fonte: Exército dos EUA/CECOM (histórico oficial); patente US 2.756.485 (pedido 1950, concessão 1956).

Depois da guerra, o desafio passou a ser montar. No Exército dos Estados Unidos, Moe Abramson e Stanislaus Danko combinaram placa de cobre corroído, furos para os terminais dos componentes e um único mergulho num banho de solda: todas as ligações feitas ao mesmo tempo.

Esse modo de montar dominaria a eletrônica por décadas.

Fonte: Exército dos EUA/CECOM (histórico oficial); patente US 2.756.485 (pedido 1950, concessão 1956).

Documento histórico
Fotografia de 1952 de um circuito de computador montado pelo processo Auto-Sembly do Exército dos EUA
Circuito montado pelo processo Auto-Sembly, fotografado em 1952.U.S. Army Signal Corps Engineering Laboratories, 1952 (CECOM Historical Archive). Domínio público. Via DVIDS.
Documento histórico
Desenho de patente em corte: placa com componentes cujos terminais atravessam furos e mergulham num banho de solda
Patente do Auto-Sembly (pedido 1950): a placa mergulha no banho de solda e todas as juntas se formam juntas.Patente US 2.756.485 (Abramson e Danko / Exército dos EUA), Fig. 2. Domínio público.
Ato IV · Anos 1950 – 1960

A placa conquista o mundo

A placa entra nas casas, atravessa a si mesma e ganha camadas escondidas.

Anos 1950

O circuito impresso chega à sala de estar

Fonte: Depoimento de B. Swiggett (2006); Radio & Television News, dez/1949; IPC, história oficial.

Laminados já fornecidos com cobre, tintas fotográficas mais estáveis e a solda em massa baratearam a placa. Ao longo dos anos 1950, rádios, televisores e aparelhos auditivos adotaram circuitos impressos: menores, mais leves e iguais entre si.

Em 1957, fabricantes americanos de placas fundaram o IPC, para criar regras comuns a um setor que crescia depressa.

Fonte: Depoimento de B. Swiggett (2006); Radio & Television News, dez/1949; IPC, história oficial.

Documento histórico
Fotografia de 1959 de um gerador de sinais com válvulas montadas sobre uma placa de circuito impresso
Válvulas montadas sobre placa impressa: a transição registrada numa fábrica de Berlim, 1959.Werk für Fernmeldewesen, Berlim, 10/01/1959. Industriesalon Schöneweide (TFA-5917819), CC BY-SA 4.0.
Documento histórico
Rádio transistorizado de bolso aberto, com chassi metálico e componentes ligados por fios
Rádio de bolso Zenith Royal 500 (c. 1956): já transistorizado, mas ainda com chassi montado à mão.Foto: Joe Haupt, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
Meados dos anos 1950

Um tubo de cobre atravessando a placa

Fonte: Depoimento de B. Swiggett, fundador da Photocircuits (2006); Leuze-Verlag.

Como o furo é metalizado hoje: Guia de PCB, capítulo 4

Com circuitos nas duas faces, era preciso ligar um lado ao outro. Ilhoses de latão faziam isso, mas eram montados à mão e podiam se soltar com o calor.

A solução foi metalizar a parede do próprio furo: uma camada química de cobre, depois reforçada por eletrólise, forma um tubo contínuo de metal. O furo metalizado tornou a dupla face confiável e abriu caminho para as multicamadas.

Fonte: Depoimento de B. Swiggett, fundador da Photocircuits (2006); Leuze-Verlag.

Ilustração
Ilustração em corte: ilhós de latão comparado a um furo metalizado, com o caminho da corrente entre as faces
Do ilhós ao furo metalizado.Ilustração didática Micropress.
Documento histórico
Fotografia aproximada de um furo metalizado: anel de cobre em volta de um furo com a parede brilhante de cobre
Um furo metalizado visto de perto: a parede do furo é de cobre.Foto: Smial, CC BY-SA 2.0 DE, via Wikimedia Commons.
Documento histórico
Placa-mãe de um microcomputador Sinclair ZX Spectrum, dupla face, com trilhas, furos metalizados e circuitos integrados
Placa-mãe de um Sinclair ZX Spectrum 48K, fabricada em 1984: dupla face, furos metalizados por toda parte.Foto: Bill Bertram, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Início dos anos 1960

Camadas escondidas

Fonte: M. E. Pole-Baker, Circuit World, vol. 10, n. 3 (1984).

Multicamadas e HDI hoje: Guia de PCB, capítulo 12

Os computadores exigiam cada vez mais ligações em menos espaço, e duas faces já não bastavam. A resposta foi empilhar: várias camadas de cobre corroído, coladas com isolante e interligadas por furos metalizados.

Em 1961, a americana Hazeltine divulgou um processo de multicamadas que se tornaria referência. As camadas internas passaram também a abrigar planos inteiros de terra e alimentação.

Fonte: M. E. Pole-Baker, Circuit World, vol. 10, n. 3 (1984).

Ilustração
Ilustração de uma placa de quatro camadas em três vistas: montada em corte, separada camada por camada e em corte lateral do furo. O furo metalizado atravessa todas as camadas; está ligado às camadas de cobre L1, L3 e L4, e na camada L2 há uma folga isolante (antipad) em volta do furo, sem contato. Legenda de elementos: máscara de solda, cobre, material isolante, metalização do furo e folga isolante.
Placa de quatro camadas, montada, separada e em corte. O furo metalizado atravessa todas as camadas, mas só se liga às camadas cujo cobre encosta na parede do furo: L1, L3 e L4. Em L2, uma folga isolante (antipad) impede o contato. Esquema didático, fora de escala.Ilustração didática Micropress.
Documento histórico
Fotografia ampliada do corte de uma placa multicamada, com as camadas 1 a 4 identificadas e um furo metalizado atravessando a placa
Corte real de um módulo de memória: placa multicamada com chip BGA; à direita, um furo metalizado atravessa a placa.Foto: Smial, Licença Arte Livre (FAL), via Wikimedia Commons.
Documento histórico
Módulo de computador de 1952 com oito válvulas no topo e fiação ponto a ponto por baixo
Módulo de válvulas do computador IBM 701 (1952): até os primeiros computadores eram ligados a fio.Museo Nazionale Scienza e Tecnologia Leonardo da Vinci, Milão. CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Ato V · Anos 1960 – 1990

Cada vez menor

Os componentes deitam sobre a placa, e os furos encolhem até virar microvias.

Anos 1960 – 1980

Componentes deitados na superfície

Fonte: Surface Mount Council (1999) e Garner & Taylor (1986), via Wikipedia; Leuze-Verlag.

Terminais que atravessam a placa roubam espaço de todas as camadas. A montagem em superfície eliminou esse furo: o componente fica apoiado sobre pequenas ilhas de cobre e é soldado por refusão.

Estudada desde os anos 1960, a técnica se espalhou a partir de meados dos anos 1980, com máquinas automáticas de posicionamento. As placas encolheram e passaram a receber componentes nas duas faces.

Fonte: Surface Mount Council (1999) e Garner & Taylor (1986), via Wikipedia; Leuze-Verlag.

Ilustração
Ilustração comparando componente de furo passante com componente de montagem em superfície
Do terminal que atravessa ao componente que se apoia.Ilustração didática Micropress.
Documento histórico
Linha de montagem eletrônica com máquina automática de posicionamento de componentes e rolos de componentes
Linha de montagem em superfície: máquinas posicionam os componentes sobre a placa.Foto: Megger Ltd., CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.
Documento histórico
Interior de máquina automática com cabeças de sucção que posicionam componentes de montagem em superfície
Por dentro de uma máquina de posicionamento: cabeças de sucção pegam e colocam os componentes.Foto: Peripitus, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
Você sabia?

Por que quase toda placa é verde?

Não há documento que prove uma causa única. O que se sabe: o verde vem de um pigmento, a ftalocianina de cobre clorada, que é barato, resiste ao calor da solda e deixa ver as trilhas. Sem o cloro, a mesma molécula é azul. O verde também contrasta bem com o cobre e com a legenda branca, e, como quase todos o adotaram, processos e máquinas de inspeção foram ajustados a ele. A explicação de uma "exigência militar" é muito repetida, mas não encontramos documento que a sustente.

Fonte: Patentes US 4.452.740 e US 8.034.531; PCB007 Magazine (mar/2020); norma IPC-SM-840, que não impõe cor.

Leque de pequenas placas de circuito impresso de amostra, cada uma com máscara de uma cor diferente
Amostras de placas com máscara em várias cores. Foto: Thomas Flummer, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
Meados dos anos 1980 – 1991

Atalhos entre camadas

Fonte: H. Holden, artigo técnico (Altium) sobre a história das microvias (HP FINSTRATE; IBM SLC, 1991).

Tipos de vias: Guia de PCB, capítulo 12

Chips com centenas de terminais em poucos milímetros exigiram outra revolução. Em vez de furos que atravessam a placa inteira, surgiram as microvias: pequenos furos feitos a laser ou por processo fotográfico, que ligam apenas camadas vizinhas, construídas uma sobre a outra.

A HP já usava placas assim em meados dos anos 1980; em 1991, a IBM levou a técnica à produção em volume.

Fonte: H. Holden, artigo técnico (Altium) sobre a história das microvias (HP FINSTRATE; IBM SLC, 1991).

Ilustração
  1. Corte esquemático de placa multicamada mostrando uma via passanteVia passanteatravessa a placa de uma face à outra
  2. Corte esquemático de placa multicamada mostrando uma via cegaVia cegasai de uma face e termina numa camada interna (aqui, da 1ª à 3ª camada de cobre)
  3. Corte esquemático de placa multicamada mostrando uma via enterradaVia enterradafica só entre camadas internas (aqui, da 2ª à 4ª) e não aparece nas faces
  4. Corte esquemático de placa multicamada mostrando uma microviaMicroviafuro pequeno e raso entre camadas vizinhas (aqui, a 1ª e a 2ª)
Quatro maneiras de ligar camadas. Os pontos azuis marcam onde cada via começa e termina. Neste desenho, cada via toca as camadas que atravessa; num projeto real, uma camada pode ser atravessada sem contato, com a folga isolante mostrada na placa de quatro camadas (momento 12). Esquema didático, fora de escala; não indica a capacidade de fabricação de um fornecedor específico.Ilustração: Guia de PCB Micropress, capítulo 12.
Ato VI · Hoje

A história continua

Mudaram os materiais e as máquinas. O problema continua o mesmo.

Hoje

O mesmo problema, novas respostas

Hoje, a placa de circuito impresso pode ser flexível, ter dezenas de camadas, esconder componentes em seu interior ou servir de base aos próprios chips.

O desafio, porém, é o mesmo dos primeiros rádios: ligar componentes de forma confiável, barata e repetível. Cada geração resolveu esse problema com as ferramentas do seu tempo.

Fonte: Síntese editorial.

Ilustração
Ilustração de placa flexível, rígido-flex e substrato de chip
Algumas formas atuais da placa.Ilustração didática Micropress.
Encerramento

Muitas mãos, um mesmo problema

Começamos com um fio preso por um parafuso. Terminamos com furos menores que um grão de areia, ligando camadas que não se veem.

Ninguém inventou a placa de circuito impresso sozinho. Ela foi construída por engenheiros de telefonia, inventores do rádio, laboratórios militares, gráficos e químicos, cada um resolvendo o problema do seu tempo.

Imprimir o desenho, proteger o cobre que deve ficar, remover o que sobra: a ideia organizada nos anos 1940 continua no coração da fabricação de placas, também nesta, fabricada em São Paulo.

Foto atual
Placa de circuito impresso multicamada com máscara verde e acabamento dourado, fabricada pela Micropress, com o logotipo da empresa no canto
Placa de circuito impresso fabricada pela Micropress.Foto: Micropress (fotografia provisória).
Acervo

Galeria histórica — Um século de invenções

Por trás de cada avanço, existiram ideias, experiências, máquinas e pessoas. Reunimos aqui imagens e documentos que ajudam a visualizar a extraordinária transformação dos circuitos eletrônicos ao longo do tempo.

Toque ou clique numa imagem para ampliá-la e ler a história, os créditos e a licença.

1920 – 1937 Fios, tábuas e chassis

  1. 1920Portaphone, receptor portátilU.S. Bureau of Standards / Scientific American, 22/05/1920. Domínio público. Via Wikimedia Commons.
  2. 1923O primeiro receptor neutrodinoPopular Science Monthly, 1923. Domínio público. Via Wikimedia Commons.
  3. 1923 – 1927Bobinas planas de Frederick SeymourPatente US 1.647.474. Domínio público.
  4. Anos 1920Rádio montado sobre uma tábuaRádio Signal Electric (EUA). Foto: Armstrong1113149, via Wikimedia Commons. Domínio público.
  5. 1925Condutores por eletrodeposiçãoPatente US 1.563.731 (pedido 02/03/1925, concessão 01/12/1925). Domínio público.
  6. 1928"The under side"Radio Broadcast, out/1928, p. 356, Fig. 3. Domínio público nos EUA. Internet Archive / Media History Digital Library.
  7. Anos 1930Chassi de rádio dos anos 1930Foto: Dave H., via Wikimedia Commons. Domínio público.
  8. 1935 – 1937Régua de terminais da CinchPatente US 2.073.466 (S. M. Del Camp / Cinch Mfg. Corp.). Domínio público.

1943 – 1959 A placa impressa entra em cena

  1. 1943 – 1948O circuito em folha metálica de Paul EislerPatente US 2.441.960, folha 2. Domínio público.
  2. Publicada em 1947Espoleta de proximidade em corteNational Bureau of Standards, Circular 468, Fig. 1 (1947). Domínio público.
  3. Publicada em 1947O mesmo amplificador, de dois jeitosNational Bureau of Standards, Circular 468, Fig. 2 (1947). Domínio público.
  4. Publicada em 1947Impressão por estêncilNational Bureau of Standards, Circular 468, Fig. 7 (1947). Domínio público.
  5. 1948Televisor Motorola VT-71 "Golden View"Foto: Westernelectric555, via Wikimedia Commons. Domínio público.
  6. 1950 – 1956Auto-Sembly: tudo soldado de uma vezPatente US 2.756.485 (Abramson e Danko / Exército dos EUA), Fig. 2. Domínio público.
  7. 1952Circuito montado pelo Auto-SemblyU.S. Army Signal Corps Engineering Laboratories, 1952 (CECOM Historical Archive). Domínio público. Via DVIDS.
  8. 1952Módulo de válvulas do IBM 701Museo Nazionale Scienza e Tecnologia Leonardo da Vinci, Milão. CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.
  9. c. 1956Zenith Royal 500Foto: Joe Haupt, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.
  10. 1959Válvulas sobre a placa impressaWerk für Fernmeldewesen, Berlim, 10/01/1959. Industriesalon Schöneweide (TFA-5917819), CC BY-SA 4.0.

1984 – hoje Cada vez mais densa

  1. 1984Placa-mãe do ZX SpectrumFoto: Bill Bertram, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
  2. Foto de 2007Um furo metalizado de pertoFoto: Smial, CC BY-SA 2.0 DE, via Wikimedia Commons.
  3. Foto de 2007Por dentro de uma máquina pick-and-placeFoto: Peripitus, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
  4. Foto de 2008Corte de um módulo de memóriaFoto: Smial, Licença Arte Livre (FAL), via Wikimedia Commons.
  5. Foto de 2008Linha de montagem em superfícieFoto: Megger Ltd., CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.
  6. Foto de 2010Réguas de terminais ainda em usoFoto: Christian Wolff, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.
  7. Foto de 2020Máscaras de muitas coresFoto: Thomas Flummer, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Fontes e créditos

Cada documento histórico traz autor, acervo e licença na própria legenda e, com mais detalhes, na Galeria histórica. As ilustrações didáticas são representações esquemáticas, fora de escala, produzidas pela Micropress; não são documentos históricos. A foto da placa Micropress é provisória.

Licenças e alterações
  • Documentos em domínio público: publicações e patentes dos EUA (Scientific American 1920, Popular Science 1923, Radio Broadcast 1928, NBS Circular 468 de 1947, patentes US 1.563.731, 1.647.474, 2.073.466, 2.441.960 e 2.756.485, fotos do Exército dos EUA) e fotos liberadas pelos autores no Wikimedia Commons.
  • Licenças Creative Commons usadas: CC BY-SA 2.0, CC BY-SA 2.0 DE, CC BY-SA 3.0, CC BY-SA 4.0, CC BY 3.0; e Licença Arte Livre 1.3.
  • Alterações: imagens reduzidas e otimizadas para a web; figuras de patentes, da NBS e da Radio Broadcast recortadas das páginas originais; miniaturas da galeria reduzidas. As versões adaptadas de obras sob CC BY-SA e Arte Livre seguem a mesma licença da obra original.
Principais fontes da pesquisa
  • NBS Circular 468, "Printed Circuit Techniques", 1947: nvlpubs.nist.gov
  • J. A. Sargrove, "New Methods of Radio Production", Journal of the British IRE, 1947: worldradiohistory.com
  • Science Museum Group: rádio de Paul Eisler, 1942: collection.sciencemuseumgroup.org.uk
  • Technograph v. Bendix, 218 F. Supp. 1 (D. Md. 1963): law.justia.com
  • Patentes US 1.563.731, 1.647.474, 2.073.466, 2.441.960 e 2.756.485 (Google Patents)
  • U.S. Army CECOM, histórico do Auto-Sembly: army.mil
  • IPC, história oficial: electronics.org/history
  • K. Gilleo, "The Circuit Centennial"; M. Hummel, "The history of the printed circuit board" (Leuze-Verlag); B. Swiggett (2006); H. Holden (Altium)
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