Nada se fabrica na medida exata. Todo processo tem variação, e por isso toda cota tem tolerância. Especificá-las — ou aceitar conscientemente o padrão do fabricante — é o que transforma um desenho num pedido fabricável. E, junto com as tolerâncias, vai o pacote de dados: o que efetivamente chega à fábrica. Este capítulo cobre os dois.
1. Por que tolerância é parte da especificação
Quando você pede uma placa de 1,6 mm, não recebe exatamente 1,6 mm: recebe algo dentro de uma faixa. O mesmo vale para furos, larguras de trilha, contorno. Ignorar a tolerância não a elimina — apenas transfere a decisão para o fabricante, que aplicará o padrão da casa. Especificar com consciência é decidir onde você precisa de aperto — e paga por isso — e onde o padrão basta.
Vale a regra geral: toda tolerância excessivamente apertada aumenta o custo de fabricação — aperte só onde a função exige. E quando a tolerância não é crítica, adotar a capacidade padrão do fabricante costuma trazer a melhor relação custo-benefício.
2. As tolerâncias que importam
Estas são as características que toda especificação precisa tratar, com o tipo de tolerância que costumam ter e o que declarar em cada uma:
| Característica | Tipo de tolerância | O que deixar claro |
|---|---|---|
| Espessura final da placa | faixa ou percentual, conforme a espessura nominal | nominal e se é a placa final acabada ou só o laminado |
| Espessura do laminado | faixa por espessura nominal | o material e a espessura do dielétrico |
| Diâmetro de furo metalizado | absoluta (±) | se a cota é do furo acabado ou da broca |
| Largura de trilha e isolação | percentual | os menores valores usados no projeto, por camada |
| Cobre | percentual | se a espessura é de cobre base ou final |
| Contorno e dimensional | absoluta (±) | a referência do contorno e as cotas críticas |
| Rasgos e recortes internos | absoluta (±) | a largura e se são metalizados |
Quadro didático, sem valores. As tolerâncias e limites vigentes da Micropress estão na Capacidade Técnica.
Repare que algumas tolerâncias são percentuais — trilha, cobre — e outras absolutas — furo, contorno. Faz diferença na hora de projetar: uma trilha de 0,10 mm com tolerância de ±20%, por exemplo, pode chegar a 0,08 mm — e isso precisa caber na sua margem de impedância e de corrente.
3. “Acabado” ou “broca”? Nominal ou final?
Um erro recorrente nasce da ambiguidade de qual medida está sendo especificada. Lembre da furação: a broca fura maior que o furo final, porque a metalização reduz o diâmetro. Então:
- diga sempre se a cota do furo é acabada — após a metalização — ou da broca;
- para o cobre, diga se é base — folha original — ou final — após a eletrodeposição. Sem especificação de cobre base, o fabricante considera a cota como cobre final;
- para a espessura, deixe claro se é do laminado ou da placa final acabada.
Uma única palavra — “acabado”, “final”, “base” — elimina a maior parte das dúvidas de tolerância. Especificações profissionais não deixam o fabricante adivinhar qual medida você quis dizer.
4. O pacote de dados de fabricação
Tolerâncias dizem quão preciso; o pacote de dados diz o quê. Um pacote completo evita idas e voltas e garante que a placa fabricada seja a que você projetou. Ele reúne:
Arquivos de imagem — Gerber RS-274-X, Gerber X2 ou ODB++. Todas as camadas, sem faltar nenhuma:
- cobre — Top e Bottom, e cada camada interna, na ordem do stack-up;
- máscara de solda — Top e Bottom;
- legenda (silkscreen) — Top e Bottom;
- contorno da placa e dados de roteamento.
Arquivo de furação (Excellon) — a furação, com diâmetros e posições, distinguindo furos metalizados e não metalizados (NPTH), ou tudo embutido, se o formato for ODB++.
Notas de fabricação (fabrication notes) — complementam os arquivos Gerber, especificando os requisitos que não podem ser representados graficamente. Normalmente incluem:
- material laminado e temperatura de transição vítrea (Tg);
- número de camadas e stack-up;
- espessura final da placa, com tolerância;
- peso (gramatura) do cobre;
- classe IPC;
- acabamento superficial especificado (HASL, ENIG, OSP, ImAg, ImSn e outros);
- cor da máscara de solda e da legenda;
- controle de impedância — alvo, tolerância e camadas;
- tolerâncias dimensionais;
- requisitos especiais — NPTH, furos castellated, vincos, vias cegas e enterradas, panelização;
- quantidade solicitada;
- prazo de fabricação.
O formulário pronto para essa nota está no modelo de especificação, e os formatos aceitos pela Micropress, em Arquivos Gerber.
Atenção do comprador. A regra de ouro: o fabricante só faz o que você envia. Camada faltando, furo NPTH não declarado, acabamento omitido — cada lacuna vira uma pergunta (e atraso) ou, pior, uma suposição. O pacote completo é o que garante cotação exata e placa correta. E mantenha coerência entre desenho, Gerber e nota de fabricação: quando os três discordam, a fábrica não sabe qual obedecer. Tudo em Gerber RS-274-X, X2 ou ODB++, zipado — nunca o arquivo nativo do CAD, como visto em A linguagem da especificação.
5. Checklist do pacote de fabricação
- ☐ Todas as camadas de cobre, incluindo as internas, na ordem do stack-up?
- ☐ Máscara de solda — Top e Bottom?
- ☐ Legenda — Top e Bottom?
- ☐ Arquivo de furação, com metalizados e NPTH separados?
- ☐ Contorno e dados de roteamento?
- ☐ Nota de fabricação com material, Tg, espessura, cobre, acabamento, cores e classe IPC?
- ☐ Requisitos de impedância, se houver?
- ☐ Instruções especiais — furos castellated, vincos, vias cegas ou embutidas, panelização?
- ☐ Quantidade solicitada e prazo de fabricação?
- ☐ Tudo em Gerber RS-274-X, X2 ou ODB++, em .zip?
E uma regra vale para todo o pacote: qualquer dúvida de interpretação deve ser esclarecida com o fabricante antes da fabricação — nunca durante.
Tolerâncias e pacote definidos
Com tolerâncias definidas e o pacote completo, falta só uma coisa para fechar a Parte III: reunir tudo num formato pronto para preencher e enviar. É o que o próximo capítulo entrega.
Este conteúdo corresponde ao Capítulo 17 — Tolerâncias e dados de fabricação do Guia Profissional — Produção e Especificação de Placas de Circuito Impresso, de Gilmar Aparecido de Souza, 1ª edição, 2026, ISBN 978-65-02-22524-0. Adaptado para leitura na web.